(Pixabey) Quem, o quê, onde, como, quando e por quê. Gosto muito dessas palavras que se vestem de perguntas com a interrogação final. Acho que o entusiasmo que minha voz traja quando as coloco pra fora traduz nossa relação. Esses termos costuram o que chamamos de lead no jornalismo. Um aprender primário do ofício. Mas me vejo cotidianamente empregando essas palavras que se vestem de perguntas para muito além do meu fazer obrigatório. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Você, leitor, consegue descansar se acaba esbarrando em uma placa de “em breve” ou em uma reforma de um endereço da sua intimidade? A minha mente automaticamente me desafia. Em breve o quê? Quando? Preciso encontrar um rosto que possa me responder o que está se projetando ali e depois de desvendar esse mistério ordinário, sinto que posso seguir tranquila. Acho que você provavelmente já tem meu diagnóstico no segundo parágrafo desta crônica. Quero saber como as paixões nasceram. O que te motivou em direção ao movimento. Quem te inspirou. E o que você verbalizou quando entendeu os porquês. Gosto da herança dos detalhes que costuram a prosa daquilo que você quer me contar sobre você, algo ou alguém que te atravessou. Quero sua história bordada em retalhos. Dividida em capítulos. Quero beber dessa jornada sua quando paro para te ouvir. Acontece que mesmo querendo muito de tudo isso que não pede pressa, eu também me perco de mim mesma quando deixo um futuro que desconheço dirigir um presente que vivo. O habitual da atualidade faz isso com a gente - nos empurra para uma travessia acelerada de resultados, conquistas e vitrines virtuais irretocáveis. E acaba arrancando nossa escuta paciente, o nosso olhar apurado e a nossa capacidade de enxergar - e separar - os instantes que podem se vestir de “para sempre”. Daqueles triviais: um toque-arrepio, um olhar-desejo, uma paisagem-respiro, um afeto-fala. Um para sempre que fica ali guardado dentro da gente. Mas é preciso contemplar esses instantes. Em Dias Perfeitos, o diretor alemão Wim Wenders me provocou para lembrar desse caminho. O seu personagem Hirayama - um zelador de banheiros públicos em Tóquio - é sereno, silencioso e profundo. Um amante da fotografia e da música. Um trabalhador que dá permissão para o tempo habitual da atualidade frear lento. E então ele sabe recuar. E ali acha espaço pra chorar de emoção ouvindo Nina Simone entoando Feeling Good. Contempla a mensagem. Porque sempre há esse novo dia cantado por ela. O dia seguinte. Em que paixões estão nascendo enquanto a gente se movimenta e inspira e entende e aprende e responde: como, quando, onde, o quê e por quê. Wim Wenders e seu Hirayama em Dias Perfeitos me lembraram de não me esquecer das palavras-perguntas de que tanto gosto e de não me perder nesse traço ansioso de um futuro malvestido do qual não conheço nem o rosto. Fico com as palavras que se vestem de perguntas daquilo que cruzo, conheço e contemplo agora. E então posso perguntar curiosa, e sem pressa, para você que me atravessa hoje.