Cabotagem usa 8,5 mil km da costa brasileira, mas respondeu apenas por 9,9% das cargas transportadas no ano passado, segunda a pesquisa (Matheus Tagé/ Arquivo/ AT) O Brasil desacelera em competitividade global por falhas sistêmicas na sua matriz de transportes. É o que aponta o relatório “Infraestrutura de Transportes e o Impacto em Custos Logísticos”, realizado pela Infra S.A. em parceria com o Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL) e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e publicado no mês passado. Clique aqui para seguir o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O estudo analisou os principais modais — rodoviário, ferroviário, aquaviário, dutoviário e aéreo — com foco na eficiência, cobertura da malha, qualidade operacional e desafios logísticos. Além disso, traçou um comparativo com países de extensão continental como China, Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália, que equalizam os seus modos de transporte. Rodovia As rodovias representavam 68,2% da matriz logística nacional, ou seja, os caminhões ainda são prioridade (Vanessa Rodrigues/ AT) O relatório aponta que, em 2024, as rodovias representavam 68,2% da matriz logística nacional. A malha rodoviária federal implantada soma 74,4 mil quilômetros (km), sendo 89% pavimentados. Ainda assim, é apenas uma parte dos 122,2 mil km totais da rede federal, que inclui trechos em obras ou planejados. Apenas 11,4% da malha pavimentada é duplicada e menos de 19,7% está sob concessão privada. Ao comparar com outros países, a diferença na extensão de rodovias pavimentadas revela a falta de investimentos rodoviários no Brasil. China e Estados Unidos (EUA), por exemplo, embora com menor participação do transporte rodoviário em suas matrizes de transporte, possuem uma densidade de malha rodoviária pavimentada cerca de 16 vezes superior à brasileira. Ferrovias A malha ferroviária, com 30,6 mil km de extensão, é majoritariamente operada pela iniciativa privada (Vanessa Rodrigues/ AT) Já a malha ferroviária, com 30,6 mil km de extensão, é majoritariamente operada pela iniciativa privada (12 das 13 concessões). Desse total, 21,2 mil km estavam em operação em 2024. A carga transportada é concentrada em minérios (72,3%) e granéis agrícolas (14,8%), o que evidencia uma baixa diversificação modal. A Participação do modal é de 15,5%. Enquanto isso, países como Austrália e Canadá utilizam ferrovias para escoar cargas em grandes volumes por longas distâncias. A Austrália, por exemplo, transporta 56% de suas cargas por ferrovias. O Japão, com alta densidade populacional, equilibra bem os modais, com 40% das cargas transportadas por trilhos. Hidroviário e cabotagem O estudou demonstra que o Brasil utiliza apenas 20,1 mil km de um total de 63 mil km de rios navegáveis ou com potencial para transporte de cargas. Em 2024, 126,2 milhões de toneladas foram transportadas por vias interiores, um número aquém do potencial. A China, por exemplo, movimenta 36% de suas cargas por hidrovias, otimizando a logística com base no transporte aquaviário. A cabotagem utiliza os 8,5 mil km da costa brasileira, mas respondeu por 9,9% das cargas transportadas no ano passado, em sua maioria petróleo e derivados (64%). Apesar de ser uma alternativa mais econômica e sustentável ao transporte rodoviário, enfrenta limitações estruturais: falta de portos adequados, navios e integração intermodal. A frota nacional é antiga, com média de 19 anos de idade, o que compromete a eficiência e a segurança do transporte marítimo doméstico. Contudo, a navegação costeira registrou um crescimento de 6,5% entre 2021 e 2024 e, em rotas como São Paulo–Recife, pode oferecer reduções de até 67% no custo do frete em comparação com o modal rodoviário, ainda que com 40% de tempo adicional. Desde 2010, o Brasil oscila em sua política de investimentos em infraestrutura. Em 2023, aplicou-se apenas 0,12% do PIB (R\$ 13,74 bilhões) em transporte e logística com recursos públicos. Para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, seriam necessários investimentos anuais de R\$ 474,2 bilhões — 4,35% do PIB —, sendo 53% em novas obras e 47% em manutenção e modernização. Problemas A carência de investimentos se reflete em rodovias em más condições, portos sobrecarregados e ausência de intermodalidade, afastando investimentos produtivos e elevando o custo logístico. Hoje, o Brasil ocupa a 71ª posição entre 141 países no Índice de Competitividade Global (GCI), ficando à frente apenas da Rússia entre os países do Brics, de acordo com o Banco Mundial. O estudo diz que “o cenário apresentado evidencia desafios e oportunidades no Brasil para desenvolver uma infraestrutura de transporte eficiente, competitiva e sustentável”, mas isso “requer um compromisso estratégico e esforço coordenado entre o Governo, o setor privado e a sociedade civil”. O relatório sugere a necessidade de modernização e ampliação da infraestrutura existente e o uso de tecnologias avançadas. “O planejamento do sistema de transportes deve ser executado de forma estratégica para alcançar a eficiência de forma sustentável e produzir os efeitos necessários e transformadores que a infraestrutura adequada de transporte pode gerar para o País.” Ministério de Portos aponta avanços O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) informou que “corrobora com o diagnóstico” apontado pelo relatório da Infra S.A., e afirma que houve avanços na política de concessões de hidrovias e no setor aquaviário. O MPor considera a ampliação do uso do modal aquaviário — com destaque para a navegação interior e a cabotagem — essencial para aumentar a eficiência logística, reduzir custos, mitigar impactos ambientais e promover a integração nacional. Questionada se criará políticas públicas a partir do estudo, a pasta elencou as que já foram realizadas como a instalação da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação (SNHN), com aumento do aporte público para obras estruturantes e concessões. O MPor destacou que “avançam projetos públicos de dragagem, balizamento e sinalização, essenciais para enfrentar os períodos de estiagem — sobretudo na Região Norte — e assegurar operações regulares ao longo do ano”. O ministério citou o Plano Geral de Outorgas (PGO 2023), que prioriza as concessões de hidrovias dos rios Madeira, Tapajós, Tocantins e Paraguai, e a região da Barra Norte (Amazonas) e da Lagoa Mirim. O edital da Hidrovia do Paraguai (tramo sul) será lançado no segundo semestre, após análise do Tribunal de Contas da União (TCU) e as concessões do Madeira e da Lagoa Mirim estão em fase de estruturação, “com foco em eficiência, previsibilidade e integração entre os modos de transporte”. A pasta mencionou também que o derrocamento do Pedral do Lourenço, no Rio Tocantins, que já conta com a Licença de Instalação, “permitirá a navegação entre Marabá e Baião (PA), destravando um importante corredor logístico para o escoamento da produção do Matopiba e viabilizando a futura concessão da Hidrovia do Tocantins, já qualificada no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI)”. O ministério informou também que a Lei 14.301/2022, a BR do Mar, trouxe avanços na cabotagem, como o aumento de embarcações autorizadas, expansão de rotas, entrada de novos operadores e crescimento na movimentação de contêineres e granéis. A implementação da legislação é acompanhada, em articulação com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), com o setor privado. O MPor disse ainda que a indústria naval foi retomada no ano passado com a contratação de R\$ 5,5 bilhões para projetos voltados à construção e modernização de embarcações destinadas à navegação interior e à cabotagem, por meio do Fundo da Marinha Mercante (FMM), o principal meio de financiamento do setor, “gerando emprego, renda, inovação tecnológica e estimulando o uso de combustíveis limpos como biodiesel”. Quanto ao transporte aquaviário, a pasta afirmou que por sua alta eficiência energética e baixa emissão de gases de efeito estufa por tonelada quilômetro útil, o modal ocupa posição central na agenda de descarbonização da logística nacional. “O Brasil está comprometido com as metas climáticas da Organização Marítima Internacional (IMO) e com os objetivos do Plano Clima do Governo Federal, que prevê uma redução de 28% nas emissões do setor de transportes até 2035. O setor aquaviário terá papel decisivo para o cumprimento dessa meta.” Por fim, o ministério observa que as ações em curso “refletem uma política pública consistente, construída em diálogo com o setor privado, governos locais e sociedade civil, com foco na transformação da infraestrutura de transportes”.