Mulher ataca vendedoras ambulantes com ofensas racistas em praia de Bertioga (Arquivo Pessoal/ Sabrina Monteiro) Duas vendedoras foram vítimas de injúria racial de uma outra ambulante enquanto trabalhavam neste fim de semana na praia da Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral de São Paulo. O caso aconteceu na tarde de sábado (15). Sabrina Monteiro, uma das vítimas, conta que a mulher já era conhecida das duas e há relatos de que ela costuma atacar, verbalmente e fisicamente, as pessoas na praia. (Veja vídeo mais abaixo) Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com Sabrina, sua amiga Paola Santos, uma mulher também negra, foi a primeira a ser abordada pela ambulante que já chegou de forma agressiva. A agressora vendia bilhetes de loteria e dizia que Paola não poderia trabalhar ali, chamando-a de “preta”, “put*” e “vagabunda”. Além disso, ela destruiu a mercadoria que a vítima levava. Em seguida, Sabrina foi ajudar a amiga e começou também a ser alvo das ofensas. Aos gritos, ela insistia que eu também não trabalharia ali, enquanto me ofenda com xingamentos racistas e criminosos, dizendo que sou preta, que vim da senzala. Foi um ataque de ódio explicíto”, afirma. Enquanto a ambulante atacava Sabrina, Paloma conseguiu filmar a cena para comprovar o episódio. Sabrina conta que, até então, a mulher xingava as duas aos gritos, mas, quando proferia as injúrias racistas, ela abaixava o tom de voz. Com o registro do momento, Sabrina e a amiga fizeram um boletim de ocorrência na Delegacia de Bertioga. Racismo é crime, e essas situações não podem passar impunes. Não podemos nos calar diante de ataques como esse. Expor, denunciar e buscar justiça são passos fundamentais para que ninguém mais passe por esse tipo de violência”, diz Sabrina. Revoltada com o episódio e também orientada pelos policiais, ela divulgou o vídeo do ocorrido nas redes sociais. Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), o caso foi registrado como injúria racial e dano, pois a ambulante também danificou o celular de uma das vítimas. A mulher fugiu do local após a discussão e ainda não foi identificada pelas autoridades. "As pessoas precisam aprender. E se elas não aprendem com essas discussões que têm por aí e com a vida, elas têm que aprender mesmo na Justiça", afirma Sabrina. -Veja o vídeo (1.455020) Questionada sobre o episódio de racismo, a Prefeitura de Bertioga informou para A Tribuna que os nomes das vítimas não constam nos registros de ambulantes. Disse também que a fiscalização do comércio ambulante é realizada em toda a extensão da faixa de areia na praia durante a semana e aos finais de semana e feriados com os agentes da Diretoria Municipal de Abastecimento e Comércio, em conjunto com a Diretoria de Trânsito e Transporte e com a Guarda Civil Municipal, além de contar com o apoio da Policia Militar. A Administração Municipal informou ainda que nessas fiscalizações são feitas orientações e apreensões de mercadorias de ambulantes clandestinos, principalmente em caso de alimentos sem procedência e sem acondicionamento correto. A Tribuna também procurou a Caixa Econômica Federal, responsável pelas Loterias Caixa, que informou repudiar toda e qualquer forma de discriminação, tratamento desrespeitoso, uso de expressões pejorativas e discriminatórias. A Caixa também informou que a agressora se trata de uma vendedora autônoma, sem qualquer ligação com o banco, e orientou os apostadores a adquirirem os produros das Loterias CAIXA apenas pelos canais oficiais, que são o portal Loterias Online, Aplicativo Loterias CAIXA, Internet Banking CAIXA e nas mais de 13 mil lotéricas espalhadas pelo país. À esquerda, mulher ataca Sabrina com ofensas racistas; à direita, Paola e Sabrina, amigas ambulantes que foram atacadas (Arquivo Pessoal/ Sabrina Monteiro) Mais uma vez Essa não é a primeira vez que Sabrina é vítima de uma violência com raízes racistas. Em 2023, ela acusou o Hospital Municipal de Bertioga de negligência e violência obstétrica durante o parto de seu primeiro filho, Akin Ayo, que nasceu prematuro com 33 semanas. O bebê morreu e o médico obstetra responsável pelo procedimento foi afastado preventivamente. No ano passado, uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com mais de 24 mil mulheres entre 2020 e 2023, aponta que adolescentes ou mulheres negras e com baixa escolaridade são as maiores vítimas de violência obstétrica no Brasil. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), este tipo de violência é definica como a apropriação do corpo da mulher e dos processos reprodutivos pelos profissionais de saúde, na forma de um tratamento desumanizado, medicação abusiva, reduzindo a autonomia da paciente e a capacidade de tomar suas próprias decisões livremente. Após o velório e enterro do bebê, a família se organizou com coletivos da Baixada Santista para se manifestar contra a violência obstétrica em frente ao Hospital Municipal de Bertioga. Na época, Sabrina relatou à Polícia Civil que o médico disse que a culpa pela morte do filho seria dela. “A culpa foi sua, porque você não me deixou te cortar”, teria dito o profissional. Samara Monteiro, irmã de Sabrina, doula e ativista do parto, relatou para A Tribuna que o hospital cometeu uma série de erros e violências desde o momento em que a gestante deu entrada na unidade.